Desde que o nome Dark Horse surgiu na imprensa, em maio de 2026, muito se falou, muito se especulou e inúmeras versões passaram a circular sobre o projeto.
Desde o primeiro momento, decidi investigar o assunto a fundo.
Conversei com fontes diretamente envolvidas, advogados que acompanham o caso, representantes da produção e profissionais com conhecimento técnico sobre financiamento audiovisual.
Busquei documentos, confrontei informações, ouvi versões distintas e procurei compreender o que efetivamente existia por trás das manchetes.
Não me interessavam boatos. Interessavam-me os fatos.
Foi durante esse trabalho que tomei conhecimento de informações sobre o financiamento de outras duas produções cinematográficas envolvendo ex-presidentes da República: Lula e Michel Temer.
Segundo as informações que recebi, havia elementos que justificavam examinar essas produções com o mesmo rigor aplicado ao Dark Horse.
Em um primeiro momento, as informações sobre esses financiamentos foram categoricamente negadas à imprensa, inclusive, segundo os relatos que acompanhei, por meio de manifestação oficial da Secretaria de Comunicação Social.
Ainda assim, continuei apurando.
Confiava na qualificação das minhas fontes, mas sabia que confiança não substitui prova. Por isso, procurei aprofundar a investigação, identificar documentos e compreender a estrutura financeira de cada produção.
Enquanto isso, a repercussão do Dark Horse crescia.
O debate ultrapassou os aspectos técnicos do financiamento cinematográfico e adquiriu contornos políticos cada vez mais intensos, em pleno ano eleitoral.
Acusações, interpretações e suspeitas passaram a circular com enorme velocidade.
E existe um aspecto desse processo que não pode ser ignorado: por trás de cada manchete estão pessoas, profissionais, famílias e reputações.
Quando uma suspeita é apresentada como fato consumado, os danos podem ser profundos e, muitas vezes, irreversíveis.
Nunca menosprezei o trabalho investigativo da imprensa. Ao contrário. Sempre reconheci sua importância e a necessidade de escrutínio sobre qualquer produção que envolva figuras públicas.
Mas também nunca deixei de questionar acusações que, a meu ver, não estavam acompanhadas de provas suficientes.
Minha posição sobre o Dark Horse sempre foi clara: contestei com veemência as alegações de irregularidades nas contas do filme de Bolsonaro, com base nas informações às quais tive acesso.
Isso não dispensa a análise independente dos documentos, mas explica por que continuei investigando.
E quanto mais cresciam os questionamentos sobre o Dark Horse, mais me aprofundava nos financiamentos dos filmes sobre Lula e Temer.
Foi nesse percurso que reencontrei um episódio de enorme relevância jornalística.
Em 2009, o Brasil assistiu à produção de uma das mais caras cinebiografias nacionais daquele período. Lula, o Filho do Brasil, dirigido por Fábio Barreto, recebeu recursos de grandes empresas e chegou a ter um orçamento divulgado superior a R$ 17 milhões, quantia que, corrigida pela inflação oficial até setembro de 2026, equivale a aproximadamente R$ 43,4 milhões.
Embora os produtores tenham posteriormente informado um custo final de R$ 12 milhões, a dimensão financeira do projeto e a identidade de seus patrocinadores já despertavam questionamentos à época.
Filme de Lula recebeu financiamento de R$ 1 milhão
O filme Lula, o Filho do Brasil, dirigido por Fábio Barreto e lançado comercialmente em janeiro de 2010, contou com financiamento de grandes empresas brasileiras.
Entre elas estava o Grupo Schahin, que destinou R$ 1 milhão à produção por meio de uma operação envolvendo a Intervídeo, produtora fundada pelo jornalista Roberto D'Ávila, do Grupo Globo.
O pagamento voltaria ao centro das atenções em janeiro de 2019, quando foram divulgadas declarações prestadas pelo ex-ministro Antonio Palocci em sua colaboração com a Polícia Federal.
O conteúdo dessas declarações merece atenção.
Segundo Palocci, o empresário Milton Schahin o procurou em 2008 para tratar de interesses da empresa relacionados à renovação de um contrato de operação de navio-sonda com a Petrobras.
O ex-ministro afirmou ter buscado interlocução com integrantes do governo federal, incluindo Dilma Rousseff, então ministra, para tratar da demanda empresarial.
Na versão apresentada pelo delator, surgiu posteriormente a possibilidade de uma contribuição financeira da Schahin. Palocci teria indicado que R$ 1 milhão fossem direcionados à produção da cinebiografia de Lula.
A suspeita levantada era de que o dinheiro destinado ao filme pudesse estar relacionado à atuação política em favor de interesses comerciais da empresa na Petrobras.
Não se tratava, portanto, apenas de discutir a legitimidade de um patrocínio cultural.
Tratava-se de examinar uma acusação específica de possível contrapartida envolvendo uma empresa contratada pela maior estatal brasileira.
E há um detalhe particularmente relevante.
Roberto D'Ávila confirmou à Folha de S.Paulo, em janeiro de 2019, o recebimento dos recursos da Schahin por sua produtora.
Segundo ele, o pagamento foi realizado mediante contrato e nota fiscal. O acordo também previa a produção de dois vídeos institucionais para a empreiteira, que não chegaram a ser produzidos.
D'Ávila afirmou ainda que a Schahin havia solicitado que seu nome não aparecesse nos créditos do filme.
É fundamental separar os elementos dessa história: o pagamento foi reconhecido; a alegação de que teria representado uma contrapartida ilícita partiu do delator e exige comprovação independente.
Não se pode transformar uma delação, por mais relevante que seja, em sentença judicial.
Mas tampouco se deve ignorar seu conteúdo quando ele levanta questões concretas de interesse público.
A questão que não pode ser ignorada
O que me chama atenção é a necessidade de aplicar critérios equivalentes de investigação a produções cinematográficas relacionadas a diferentes personagens políticos.
Se a origem dos recursos do Dark Horse merece escrutínio, por que não examinar também, com igual profundidade, os financiamentos das produções sobre Lula e Temer?
Se contratos, transferências bancárias, patrocinadores e relações empresariais são relevantes em um caso, devem ser relevantes nos demais.
O que defendo é a consistência do método.
A imprensa tem o dever de questionar, apurar, confrontar versões e revelar fatos de interesse público.
Quero que as perguntas sejam bem fundamentadas e que o mesmo padrão de exigência seja aplicado a todos.
Quero saber quem financiou, quanto pagou, por que pagou, quais contratos foram celebrados, quais serviços foram efetivamente prestados e se houve alguma contrapartida indevida.
São perguntas legítimas, independentemente do presidente retratado na tela.
O compromisso do jornalismo não pode ser com a conveniência política de uma manchete. Precisa ser com a consistência das provas, com o direito de resposta e com a verdade dos fatos.
E, quando reputações estão em jogo, esse compromisso deixa de ser apenas uma virtude profissional.
Torna-se uma responsabilidade indispensável.
+ Entenda de Política em Oeste
Fabio Wajngarten é empresário, comunicador e ex-secretário de Comunicação Social da Presidência da República no governo Jair Bolsonaro. Com trajetória nos setores de mídia, publicidade e comunicação estratégica, também atuou como assessor especial da Presidência. É conhecido por sua atuação nos bastidores da política nacional e por sua experiência nas relações entre imprensa, governo e setor privado.
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