A Polícia Federal (PF) identificou R$ 80 milhões em emendas de comissão destinadas a Belford Roxo (RJ) durante a gestão do ex-prefeito Márcio Canella, preso nesta quinta-feira, 16, no âmbito da oitava fase da Operação Unha e Carne. Segundo a corporação, os recursos foram registrados como “emendas de liderança”, sem identificação nominal dos parlamentares responsáveis pelas indicações.
A informação consta da representação que embasou a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de decretar a prisão preventiva do político.
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Na página 48 da representação, os investigadores relacionam as verbas à articulação política atribuída a Canella. O documento também faz referência a reportagens sobre um esquema investigado pela PF envolvendo Valdemar Costa Neto, presidente do PL.
No celular do ex-prefeito, a PF encontrou uma anotação com os dizeres “Emendas / 20 Pedro 20 Mota”. Os investigadores associam os nomes a Pedro Lucas Fernandes e Gabriel Mota, ambos deputados federais do União Brasil.
O registro também foi reproduzido na decisão de Moraes, assinada na última terça-feira, 13. Para o ministro, os elementos reunidos pela PF reforçariam os indícios de que Canella exercia papel central na sustentação política da organização criminosa investigada.
Os documentos, porém, não esclarecem o significado dos números anotados nem demonstram que os dois parlamentares tenham indicado os R$ 80 milhões destinados ao município.
Também não há detalhamento sobre as obras, os serviços ou os projetos que receberiam os recursos. A representação tampouco informa quanto do montante foi efetivamente repassado à prefeitura.
As peças analisadas não comprovam que as emendas tenham sido desviadas ou usadas para financiar a rede de postos de combustíveis investigada. Até o momento, os documentos não estabelecem uma ligação financeira direta entre as verbas públicas e as movimentações suspeitas identificadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Por meio de sua advogada, Sheila Lustoza, Canella declarou que “confia em Deus, na Justiça e tem certeza de que tudo será esclarecido”.
PF aponta articulação política e suspeita de lavagem de dinheiro
A referência às emendas aparece na investigação sobre uma suposta organização criminosa que, segundo a PF, utilizaria empresas do setor de combustíveis para movimentar e ocultar recursos de origem ilícita. Os investigadores atribuem a Canella a função de articulador político e de elo entre integrantes do grupo, agentes públicos e estruturas administrativas.
Na mesma representação, a corporação menciona anotações manuscritas apreendidas na residência de outros investigados. Os registros atribuem ao ex-prefeito repasses recorrentes de R$ 51 mil, R$ 31 mil e R$ 57 mil, este último identificado pelo codinome “Amigo”.
De acordo com a PF, os valores teriam origem em atividades relacionadas à rede de postos de combustíveis. Não há, contudo, comprovação de que os pagamentos tenham sido feitos com recursos provenientes das emendas destinadas a Belford Roxo.
Outro elemento citado pelos investigadores é o vínculo societário entre Canella e Bruno Viana de Souza na empresa Brumar Empreendimentos e Participações. Para a PF, a relação conecta o ex-prefeito ao Posto de Gasolina São Sebastião de Belford Roxo, apontado como responsável por mais de R$ 10 milhões em depósitos em espécie comunicados ao Coaf.
A investigação também identificou movimentações financeiras globais superiores a R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026, com base em relatórios de inteligência financeira. As operações envolvem centenas de pessoas físicas e jurídicas, sobretudo no setor de combustíveis. O montante se refere ao conjunto de transações examinadas e não tem relação direta demonstrada com as emendas destinadas ao município.
Na representação, a PF sustenta que Canella teria mantido interlocução com integrantes dos núcleos econômico e institucional do grupo investigado, além de se beneficiar de valores provenientes das atividades atribuídas à organização.
Em parecer apresentado em 14 de setembro, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, manifestou-se favoravelmente às medidas cautelares solicitadas pela corporação. Na terça-feira, Moraes acolheu parcialmente os pedidos e determinou a prisão preventiva de Canella e de outros investigados, entre eles o ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro Marcus Amim.
A PF divulgou na noite desta quinta-feira o balanço da oitava fase da Operação Unha e Carne, que terminou com seis pessoas presas. Durante o cumprimento dos mandados, os agentes apreenderam veículos de luxo, armas, dinheiro em espécie, joias, relógios, aparelhos eletrônicos e documentos que poderão contribuir para o avanço das investigações.
Veja o balanço das apreensões:
- 12 veículos de luxo;
- 13 celulares;
- Joias e relógios de luxo;
- Cerca de R$ 90 mil em dinheiro;
- 16 armas e munições;
- Mídias e equipamentos eletrônicos;
- Documentos diversos.
O post PF identifica R$ 80 milhões em emendas para Belford Roxo na gestão Canella apareceu primeiro em Revista Oeste.