Primeiro foi um “transitioning away from fossil fuels” no Balanço Global (GST) da COP28, em Dubai, em 2023, bem tímido, quase pedindo desculpas por estar ali. Dois anos depois, na COP30, em Belém, em 2025, os petroestados conseguiram expurgar o tema do texto final da conferência do clima, mas não impediram que a presidência da COP30 se comprometesse a criar um Mapa do Caminho para a transição para além dos combustíveis fósseis. E essa tarefa foi devidamente cumprida nesta 3ª feira (3/11), com a apresentação de um roadmap global para que o mundo deixe para trás o petróleo, o gás fóssil e o carvão.
O Mapa do Caminho reforça as responsabilidades comuns, porém diferenciadas entre os países nesta corrida contra o tempo para eliminar os combustíveis fósseis da matriz energética mundial. No entanto, como destaca o Observatório do Clima (OC), o documento deixa claro que não há mais desculpas para as nações se engajarem neste processo. Afinal, embora capitaneado pela presidência brasileira da COP30, ele é resultado de uma construção conjunta, com 267 contribuições de variados segmentos da sociedade de 115 países, lembra a CEO da COP30, Ana Toni.
“Não há mais justificativas para que os países prolonguem sua dependência de petróleo, gás e carvão. Em um mundo 1,5oC mais quente, o documento chega justamente em um momento no qual o debate precisa sair do plano das declarações e entrar na fase de implementação”, reforça o OC.
O roteiro para a transição global para além da energia suja dos combustíveis fósseis sugere um cronograma que se inicia em 2027, mapeia as necessidades de cada país, cria incentivos fiscais e foca o combate às emissões de metano. Entre 2028, na COP33, quando haverá uma nova rodada sobre o GST, e 2030, o foco seria expandir o acesso à distribuição e à produção de energia de baixas emissões. E uma fase final, entre 2031 e 2033, terá como foco acelerar a implantação de energia renovável, substituir os combustíveis fósseis e consolidar sistemas de energia mais limpos, diversificando a oferta mundial de energia e fortalecendo a segurança energética, detalham Folha e Reuters.
O plano não nomeia países, nem estabelece metas individuais. Reforça, porém, o conceito adotado no Acordo de Paris de que aqueles que enriqueceram produzindo carbono ao longo da história devem ser os primeiros a mudar sua matriz energética. Um recado claro às nações ricas, particularmente aos Estados Unidos, que, sob o comando de Donald Trump, vêm ignorando a urgência climática e apostando na expansão da oferta e do consumo de combustíveis fósseis.
O Mapa do Caminho global também traz uma classificação em quatro tipos, ou arquétipos, a ser aplicada a três pilares: demanda de energia, oferta de energia e economia. A ideia é que os países consigam mapear a sua dependência da energia suja respondendo a duas perguntas centrais: quais são a escala e a complexidade da transformação energética e econômica exigida, e quais as suas condições para realizá-la.
O documento ainda apresenta três propostas para acelerar a implementação: incentivar países, governos subnacionais e setores a começar agora, usando o Índice de Prontidão para a Transição (que examina a exposição dos países aos combustíveis fósseis e sua capacidade de conduzir a transição a partir dos três pilares) para avaliar suas circunstâncias e identificar prioridades; lançar um Mutirão TAFF (transitioning away from fossil fuels), uma agenda coletiva para acelerar ações coordenadas até 2033; e manter o diálogo e a cooperação internacionais, inclusive por meio das futuras Presidências da COP e do GST, para avaliar o progresso e enfrentar desafios comuns de implementação.
Presidente da COP30, André Corrêa do Lago, afirma que os roteiros (a presidência também divulgou o roadmap para reverter o desmatamento até 2030) visam ajudar a direcionar as COPs, deixando de se concentrar na negociação de acordos globais para enfrentar a crise climática e passando a priorizar a implementação das metas já acordadas. Um recado claro para a COP31, que começa na próxima semana em Antalya, na Turquia.
“São documentos de implementação”, frisou Corrêa do Lago ao Guardian. “Há um grupo diferente de pessoas que negocia e outro que implementa. O problema que temos tido em muitas Comissões de Política é pensar que as mesmas pessoas que negociam também precisam coordenar a implementação — o que não é o caso.”
O lançamento do Mapa do Caminho global para além dos combustíveis fósseis foi amplamente repercutido pelas imprensas nacional e internacional, com matérias no Valor, O Globo, Bloomberg, Estadão, Climate Home, AFP, Business Green, Agência Brasil, Poder 360 e g1, entre outros veículos.
Leia também: Repercussões sobre os Mapas do Caminho da Presidência da COP30.
Este conteúdo é originalmente de climainfo.org. Para a reportagem completa, acesse:
https://climainfo.org.br/2026/11/04/presidencia-da-cop30-lanca-mapa-do-caminho-global-para-eliminar-os-combustiveis-fosseis/
Fonte: climainfo.org · Por Célia Mello