terça-feira, 3 de novembro de 2026 Transmissão 24h
INÍCIO
Reeleição de Lula pode acionar circuit breaker na Bolsa de Valores, mostra estudo

Reeleição de Lula pode acionar circuit breaker na Bolsa de Valores, mostra estudo

Brasil Estado | 22/10/2026 às 16:30 | há 1 semana | 12 min de leitura

A possibilidade de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode provocar um verdadeiro terremoto no mercado financeiro brasileiro.

Um relatório divulgado nesta quinta-feira, 22, pela corretora Monte Bravo, realizado pelo economista Felipe Tavares, estima em aproximadamente 55% a probabilidade de a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) sofrer uma queda suficientemente intensa para interromper suas negociações, caso Lula derrote Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo, 25.

CIRCUIT BREAKER REELEIÇÃO DE LULABaixar

O estudo, intitulado "Reeleição de Lula" acionaria o circuit breaker em pouco mais da metade dos cenários, aponta que uma vitória do atual presidente poderia provocar uma desvalorização intradiária mediana de 11,3% no Ibovespa na segunda-feira, 26, primeiro pregão depois da votação.

Saiba mais: Após anúncio de pandemia, Ibovespa cai 10%; Circuit breaker é acionado

O percentual ultrapassaria o limite de 10% que aciona o chamado circuit breaker, mecanismo de segurança da B3 que suspende temporariamente as negociações para conter movimentos extremos de queda.

A projeção ocorre em um momento em que os investidores demonstram crescente expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro. Segundo o relatório, o mercado financeiro já incorpora aos preços dos ativos uma probabilidade de aproximadamente 77,5% de eleição do candidato do PL, conforme as apostas registradas na plataforma Polymarket em 20 de outubro.

Saiba mais: Secretário dos EUA diz que é preciso 'consertar' o Brasil

Nesse contexto, uma eventual vitória de Lula representaria uma surpresa negativa para investidores posicionados na expectativa de mudança de governo.

Na segunda-feira 5, primeiro pregão após a votação, o Ibovespa avançou 7,85% e fechou acima de 207 mil pontos, superando pela primeira vez a marca de 200 mil. O dólar caiu 4,12% e terminou o dia a R$ 5,0022. Na máxima do dia, o índice chegou a 209,6 mil pontos. Na terça-feira seguinte, o dólar fechou em R$ 4,975, abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde maio. A Macro Strategy, que usa o fechamento de 206,9 mil pontos, calcula a alta em 7,7%. O relatório também registra entrada recorde de capital estrangeiro, de R$ 10,1 bilhões, naquela segunda-feira. Veja o resumo da notícia +2

O que o mercado está precificando

Segundo o documento, o Ibovespa, hoje em 208,3 mil pontos, embute cerca de 77% de chance de vitória de Flávio Bolsonaro, de acordo com o mercado de previsão Polymarket. Antes do primeiro turno, a probabilidade atribuída a Lula era de 38%. Ela caiu a 16% depois da votação e hoje está em 22,5%. As pesquisas, porém, mostram empate técnico. O Datafolha de 15 de outubro registrou 51% para Flávio e 49% para Lula nos votos válidos.

A partir da reação do 1º turno, os analistas estimam que o índice está de 11% a 21% acima do valor justo do cenário Lula. Esse valor seria de cerca de 174 mil pontos, numa faixa de 164 mil a 185 mil.

Circuit breaker em jogo

O gatilho da B3 é uma queda de 10% sobre o fechamento anterior, que interrompe os negócios por 30 minutos. Como a eleição é no domingo, a referência seria o fechamento de sexta-feira, 23, e o teste, a mínima de segunda, 26.

Num cenário de reeleição de Lula, o modelo da Macro Strategy aponta queda intradia mediana de 11,3%. A estimativa final de chance de circuit breaker, condicional a essa vitória, é de cerca de 55%, numa faixa de 40% a 65%. O modelo puro chega a 62%, e o relatório reduz o número porque o caso mais próximo, a reeleição de Dilma Rousseff em 2014, sugere queda de cerca de 10%. Na ocasião, o Ibovespa chegou a cair 6,2% pela manhã e fechou em baixa de 2,8%.

Pelas contas do relatório, a chance de o segundo estágio (queda de 15%, com pausa de uma hora) ser acionado é de cerca de 20%. A do terceiro (20%) é de cerca de 6%.

Considerando também a probabilidade de Lula vencer, a chance incondicional de circuit breaker na segunda-feira é de cerca de 15%, numa faixa de 12% a 20%. Nenhuma eleição presidencial acionou o mecanismo desde sua criação, em 1997. O único gatilho de origem política foi o Joesley Day, em 2017.

A reação do mercado financeiro ao resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, realizado em 4 de outubro, foi expressiva.

Na sexta-feira, 2 de outubro, último pregão antes da votação, o Ibovespa havia encerrado as negociações aos 192.114 pontos.

Na segunda-feira, 5, primeiro dia de negociação depois das urnas, o principal índice da Bolsa brasileira disparou 7,7%, alcançando 206.912 pontos.

Foi uma valorização de aproximadamente 14,8 mil pontos em uma única sessão, em meio à melhora das perspectivas eleitorais de Flávio Bolsonaro.

O movimento foi acompanhado por uma forte entrada de capital estrangeiro. Apenas naquele pregão, os investidores internacionais aplicaram R$ 10,1 bilhões no mercado acionário brasileiro, segundo os dados citados pela Macro Strategy Brazil.

A valorização não se limitou à primeira sessão depois da eleição. Em 20 de outubro, o Ibovespa já havia alcançado 208.296 pontos, acumulando uma alta de aproximadamente 8,4% em relação ao fechamento anterior ao primeiro turno.

O mercado de câmbio também reagiu favoravelmente à perspectiva de vitória de Flávio Bolsonaro, com queda do dólar diante do real no período posterior à votação.

A valorização da moeda brasileira, juntamente com a alta das ações, é compatível com uma percepção de menor risco por parte dos investidores. Entretanto, o relatório da Macro Strategy Brazil não apresenta uma série específica de cotações cambiais que permita quantificar a desvalorização do dólar no período.

O comportamento dos mercados sugere que parte relevante dos investidores associa a eventual vitória do candidato do PL à expectativa de mudanças na condução da política econômica, especialmente em relação às contas públicas, ao controle dos gastos governamentais e à previsibilidade das decisões econômicas.

Essas expectativas ajudam a explicar a diferença entre os cenários avaliados pelo relatório, embora não signifiquem que o desempenho futuro da economia esteja garantido por qualquer resultado eleitoral.

A reação foi ainda mais expressiva no mercado de câmbio. No dia 5 de outubro, o dólar comercial despencou aproximadamente 4,1%, encerrando o pregão perto de R$ 5, depois de ter fechado a sessão anterior em torno de R$ 5,22.

Foi a maior queda diária da moeda norte-americana desde 2018. Durante as negociações, o dólar chegou a ser cotado abaixo de R$ 4,96.

A combinação de disparada da Bolsa, valorização do real e recuo dos juros futuros evidenciou o otimismo dos investidores com o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro.

Reeleição de Lula poderia derrubar Ibovespa para 174 mil pontos

Segundo o estudo, o Ibovespa estaria atualmente entre 11% e 21% acima do valor considerado justo para um cenário de reeleição de Lula.

O relatório calcula que, caso o petista permaneça no Palácio do Planalto, o principal índice da Bolsa brasileira poderia recuar para aproximadamente 174 mil pontos, com uma faixa estimada entre 164 mil e 185 mil pontos.

Em uma extrapolação mais pessimista, sem considerar fatores capazes de amortecer as perdas, o índice poderia chegar a 150 mil pontos.

Para chegar a essas projeções, os analistas utilizaram um modelo estatístico com 400 mil simulações de Monte Carlo, considerando diferentes probabilidades eleitorais, a distância entre os preços dos ativos em cada cenário e a velocidade de reação dos investidores.

O resultado aponta que, em 62% das simulações, uma vitória de Lula provocaria uma queda intradiária superior a 10%.

Depois de ajustar o modelo com base no comportamento histórico da Bolsa nas eleições de 2014, os pesquisadores reduziram a estimativa central de acionamento do circuit breaker para aproximadamente 55%, com intervalo de incerteza entre 40% e 65%.

O levantamento também calcula uma probabilidade próxima de 20% de que a queda alcance o segundo estágio de paralisação, aos 15%, e de aproximadamente 6% de que chegue aos 20%.

Essas probabilidades são condicionais à vitória de Lula. Quando os pesquisadores consideram também a possibilidade de o petista perder a eleição, o risco estimado de acionamento do mecanismo cai para aproximadamente 15%.

O que é o circuit breaker

O circuit breaker é um mecanismo de proteção utilizado pela B3 em momentos de extrema volatilidade.

Quando o Ibovespa registra queda de 10% em relação ao fechamento anterior, as negociações são interrompidas por 30 minutos.

Se, depois da retomada, a desvalorização atingir 15%, ocorre uma nova suspensão, desta vez por uma hora.

Caso a queda alcance 20%, a Bolsa pode determinar uma paralisação por prazo definido pela própria instituição.

O objetivo é permitir que investidores reavaliem suas posições e reduzir os efeitos de movimentos de venda desordenados.

Segundo o relatório, nenhuma eleição presidencial brasileira provocou o acionamento desse mecanismo desde sua criação, em 1997.

Uma eventual reeleição de Lula acompanhada de uma queda dessa magnitude representaria, portanto, um episódio inédito na história eleitoral do mercado acionário brasileiro.

Estudo compara possível vitória de Lula à reeleição de Dilma Rousseff

Para avaliar os riscos de uma reação negativa do mercado, a Macro Strategy Brazil também examinou o comportamento da Bolsa em eleições presidenciais anteriores.

O principal paralelo é a disputa de 2014, quando Dilma Rousseff (PT) derrotou Aécio Neves (PSDB) no segundo turno.

Naquele ano, o avanço de Aécio para a segunda etapa da eleição havia provocado uma valorização de 4,7% do Ibovespa em um único pregão.

Entretanto, depois da confirmação da reeleição de Dilma, o mercado reagiu negativamente.

No primeiro pregão após a votação, o Ibovespa chegou a cair 6,2% durante a manhã, embora tenha encerrado o dia com perda de 2,8%.

As ações da Petrobras registraram desvalorização de aproximadamente 12%.

Segundo os analistas, a queda máxima observada em 2014 correspondeu a aproximadamente 1,3 vez a valorização registrada depois do primeiro turno.

Aplicando essa proporção à alta de 7,7% observada em outubro de 2026, o estudo chega a uma possível queda próxima de 10%, exatamente o limite necessário para interromper as negociações da Bolsa.

A eleição de 2022, por outro lado, apresentou comportamento diferente.

Na ocasião, Lula já era considerado favorito pelos investidores, e sua vitória estava amplamente incorporada aos preços dos ativos.

Depois do resultado, o Ibovespa chegou a cair 2,1% durante o pregão, mas encerrou o dia com valorização de 1,3%.

Para os pesquisadores, a principal diferença é que, desta vez, o mercado financeiro considera Flávio Bolsonaro o candidato mais provável de vencer.

Bancos, varejistas e estatais seriam os mais prejudicados

O relatório também identifica os setores econômicos potencialmente mais afetados por uma eventual reeleição de Lula.

Entre os principais estão bancos, empresas varejistas e companhias estatais.

Esses segmentos seriam particularmente sensíveis a mudanças nas expectativas de política econômica, juros, inflação e condução das empresas controladas pelo governo federal.

O comportamento das ações depois do primeiro turno reforça essa avaliação.

No pregão de 5 de outubro, por exemplo, as ações do Banco do Brasil avançaram aproximadamente 13,2%, enquanto os papéis do Itaú subiram quase 10%.

As ações do BTG Pactual registraram valorização de cerca de 22,5%, enquanto as da Magazine Luiza dispararam aproximadamente 24,8%.

O movimento foi associado às expectativas de redução dos juros e melhora das condições econômicas em um eventual governo de Flávio Bolsonaro.

Na avaliação da Macro Strategy Brazil, empresas exportadoras e concessionárias de serviços públicos poderiam funcionar como amortecedores de uma queda generalizada.

Isso porque uma eventual desvalorização do real aumentaria, em determinadas circunstâncias, o valor em moeda nacional das receitas obtidas no exterior.

Ainda assim, o estudo alerta para o risco de uma saída simultânea de investidores estrangeiros.

Somente até 14 de outubro, o fluxo de capital internacional para a Bolsa brasileira havia alcançado R$ 19,1 bilhões, segundo os dados apresentados pela consultoria.

Uma reversão abrupta dessas posições poderia ampliar a pressão vendedora sobre o mercado acionário.

Mercado aposta em Flávio Bolsonaro, mas pesquisas mostram disputa apertada

Apesar do otimismo dos investidores, o resultado do segundo turno permanece incerto.

Em 20 de outubro, a plataforma Polymarket atribuía aproximadamente 77,5% de probabilidade de vitória a Flávio Bolsonaro, contra 22,5% para Lula.

Entretanto, as pesquisas eleitorais apresentavam um cenário mais equilibrado.

Levantamento Datafolha citado no relatório indicava Flávio Bolsonaro com 51% dos votos válidos e Lula com 49%, situação de empate técnico.

A própria Macro Strategy Brazil ressalta que as probabilidades registradas em plataformas de apostas não equivalem a pesquisas eleitorais e podem divergir do resultado efetivo das urnas.

O estudo também reconhece que o comportamento do mercado dependerá de outros fatores, como a composição do Congresso Nacional, a sinalização da futura equipe econômica e o cenário internacional.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro, por sua vez, poderia produzir uma nova valorização da Bolsa, mas provavelmente menos intensa que a registrada depois do primeiro turno.

Isso porque, segundo os analistas, uma parcela significativa da expectativa favorável ao candidato já estaria incorporada aos preços das ações.

A consultoria também considera que uma eventual sinalização de moderação econômica por Lula poderia reduzir a intensidade de uma reação negativa.

De qualquer maneira, os números apresentados pelo estudo mostram como a eleição presidencial passou a influenciar diretamente o comportamento dos ativos financeiros brasileiros.

Depois de uma valorização histórica da Bolsa e de uma queda expressiva do dólar em reação ao desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, os investidores se preparam para uma possível reversão caso Lula conquiste mais quatro anos no poder.

A dimensão dessa reação, contudo, dependerá tanto do resultado eleitoral quanto das expectativas econômicas que prevalecerem até a abertura do pregão de segunda-feira, 26.

O post Reeleição de Lula pode acionar circuit breaker na Bolsa de Valores, mostra estudo apareceu primeiro em Revista Oeste.

Compartilhar: WhatsApp Twitter

Leia também