A Secretaria do Tesouro Nacional, vinculada ao Ministério da Fazenda, promove cursos sobre gênero e diversidade durante o expediente e oferece pontos aos participantes em uma seleção interna para modalidades mais flexíveis de teletrabalho.
As atividades integram um programa desenvolvido em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O curso faz parte de uma trilha mais ampla, composta de cinco módulos e aproximadamente 20 horas de formação.
Documentos obtidos por Oeste mostram que as capacitações abordam questões como feminismo, desigualdade de gênero, "interseccionalidade" e comportamentos considerados discriminatórios.
A participação é facultativa, mas os certificados podem ajudar os servidores a melhorar a classificação no Programa de Gestão e Desempenho (PGD) trimestral.
A programação desta semana contempla dois encontros, com duração de três horas e meia cada, realizados das 14h30 às 18h, pela plataforma Microsoft Teams:
- O primeiro ocorreu na terça-feira 20, com o tema "Introdução à Diversidade, Equidade e Inclusão";
- O segundo, marcado para esta quinta-feira, 22, trata de "Gênero e Interseccionalidades".
Um comunicado interno diz que os servidores precisam acompanhar 90% das atividades para obter o certificado de conclusão. Quem atingir 80%, recebe o certificado de participação. Ambos podem ser levados à próxima seleção do PGD.
De acordo com um servidor ouvido sob condição de anonimato, o regime mais flexível permite trabalhar remotamente durante quase todo o trimestre, com apenas quatro dias de comparecimento presencial.
A escolha dos beneficiados depende de um processo seletivo realizado semestralmente, no qual as horas de capacitação são consideradas.
O funcionário afirma que a pontuação desses cursos pode fazer diferença na classificação. Ele teme ser prejudicado caso não participe das atividades.
Aulas no Tesouro Nacional abordam feminismo e desigualdade de gênero
O material utilizado no primeiro módulo tem 68 páginas e foi elaborado pela Diverse Consultoria, empresa especializada em diversidade, equidade e inclusão.
A apresentação identifica a consultoria como responsável pelo programa de capacitação, no âmbito de um projeto de cooperação técnica entre o Tesouro e o PNUD.
Entre os assuntos apresentados estão a trajetória dos direitos da mulher, desigualdade no mercado e a participação feminina em cargos de liderança.
Os servidores também recebem explicações sobre termos como:
- manterrupting, utilizado para descrever interrupções recorrentes da fala de mulheres; e
- mansplaining, empregado quando um homem explica determinado assunto de maneira condescendente, presumindo que uma mulher não o compreende.
Outra atividade, intitulada "Jogo dos privilégios de gênero", convida os participantes a refletir em situações de discriminação, como interrupções em reuniões, apropriação de ideias e constrangimentos no ambiente profissional.
A apresentação ainda recomenda que os funcionários incorporem recortes de gênero e raça aos produtos técnicos do Tesouro.
Medida provoca críticas entre servidores
A associação entre a capacitação e a seleção para teletrabalho gerou desconforto entre integrantes do corpo técnico.
Um servidor ouvido por Oeste criticou o que considera uma interferência ideológica nas atividades do órgão, responsável por funções como a administração da dívida pública e a gestão financeira do governo federal.
"Minha principal crítica à utilização de cursos de viés ideológico para obter pontos em uma seleção que, para muitos, se faz necessária em termos de custo e qualidade de vida consiste na afronta à dignidade do servidor que possui outra visão", afirmou.
+ Veja mais notas exclusivas e de bastidores na coluna No Ponto
Segundo ele, uma das aulas chegou a reunir 178 participantes. O funcionário também relatou que os encontros não são gravados, o que impede o acompanhamento posterior por quem esteja ocupado com outras atividades durante o expediente.
A coluna procurou o governo para esclarecer a justificativa das capacitações, os custos envolvidos e os critérios de pontuação para o teletrabalho, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto.
Leia também: "Máquina de mentiras", reportagem publicada na Edição 345 da Revista Oeste
O post Tesouro Nacional promove cursos de gênero e diversidade durante expediente que garantem pontos para teletrabalho apareceu primeiro em Revista Oeste.